Que a educação brasileira, está há muito em situação calamitosa, não é novidade. O problema é que pouco ou nada vemos de discussão sobre o tema e vamos desperdiçando tempo e deixando nossos jovens cada vez mais distantes das competências apontadas como importantes para um futuro, em que sociedade e negócios passarão por transformações muito grandes a uma velocidade, a qual não estamos acostumados.
A divulgação pela OCDE (Organização ´para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), dos resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2018, corroboram a necessidade de uma mudança profunda no sistema educacional brasileiro.
Resumidamente, o que aponta o resultado divulgado pela OCDE é que os “alunos brasileiros que não entendem o que leem, não sabem fazer conta e não entendem conceitos básicos de ciência”(1).
Em uma escala que vai até o nível 6, os estudantes brasileiros não conseguiram ultrapassar o nível 2, em matemática, não demonstrando capacidade de responder com clareza as questões ou identificar/e procedimentos rotineiros, através de instruções diretas.
O problema na base do ensino
O PISA é um exame realizado a cada três anos, com o objetivo de medir os conhecimentos de estudantes com quinze anos de idade. Ou seja, avalia exatamente a formação básica dos estudantes.
Este é, em minha opinião, o grande problema do Brasil, em termos de educação. Há muito deixamos de lado a formação básica, com uma clara opção pela massificação do ensino superior.
Foram muitas as ações desastrosas, como a introdução da progressão continuada, que implementada sem uma revisão estrutural e pedagógica, que suportasse a mudança, acabou por ser tornar em um regime de aprovação automática, uma vez que os alunos, avançam em ciclos, sem o devido preparo(2).
O resultado desta política é o desastre traduzido, pela participação no PISA.
Ensino fundamental e superior desestruturados
O quadro catastrófico que vivenciamos no ensino fundamental, tem reflexo direto nas etapas subsequentes da formação estudantil. Alunos despreparados ingressam no ensino médio, em um quadro de analfabetismo funcional, obrigando aos professores a tentarem suprir as deficiências trazidas ou diminuírem o grau de exigência, permitindo que os indivíduos acessem o nível superior sem o devido preparo.
No ensino superior o ciclo da ineficiência do sistema educacional chega ao seu ápice, com muitos profissionais sendo despejados no mercado, todos os anos, sem o mínimo preparo, para exercer a profissão adotada.
O ensino superior é impactado pelos péssimos resultados dos níveis anteriores e pela política de aumento desenfreado do número de instituições de ensino, que fez com que aumentou o número de vagas nas IES (Instituições de ensino Superior), sem o devido controle sobre a qualidade do ensino prestados, por estas instituições.
Um questionamento recorrente, para mim, é o que aconteceria se, a exemplo do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), os formandos de todos os cursos fossem submetidos a um exame de qualificação, para poderem obter o registro profissional.
O distanciamento entre o ensino universitário e o mercado tende a aumentar, uma vez que, além de estudantes despreparados, a academia continua a utilizar a mesma grade curricular, sem estar atenta as mudanças do mundo do trabalho, principalmente em função da revolução tecnológica, que impactará fortemente a forma como o trabalho será realizado, em futuro muito próximo.
Qual o caminho da solução?
A reviravolta nesta situação caótica não é simples. Estudos realizados em diversos países, incluindo o Brasil, apontam como fator primordial para a melhoria da base do sistema de ensino, a formação dos professores, que no Brasil é muito precária, principalmente daqueles que irão lecionar no ensino fundamental.
Olhar para o que acontece nos países que estão no topo do PISA é uma grande oportunidade. Apesar de possuírem estratégias diferentes de melhoria do sistema de ensino, um ponto comum entre eles, é a valorização do professor conjuntamente com ações que buscam diminuir as diferenças entre escolas e alunos.
Um projeto de valorização da carreira de magistério, fundamentado na melhoria da formação do professor, através do fortalecimento dos cursos de pedagogia e licenciatura, com uma carga horária adequada e oportunidade de treinamento ao longo do curso, através de programas de estágio supervisionados, participação em seminários e congressos; e em um plano de carreira para magistério, com uma remuneração condizente com a importância da função de professor, capaz de atrair as melhores mentes para o magistério, é a ponto de partida para a inflexão da curva de desempenho do ensino brasileiro.
A desigualdade entre regiões e tipos de escola (publica e privada) é outro ponto destacado pela OCDE, na análise dos resultados. O jornalista Ricardo Amorim, em postagem no LinkedIn (04/12/19), discorrendo sobre os resultados do PISA, destacou: “Alunos de 15 anos do Brasil ficaram. em 57º lugar entre 77 países no ranking de leitura do PISA. Considerando só os alunos dos colégios privados, o Brasil estaria em 11º lugar. Considerando só os alunos da rede pública, estaria em 66º”.
O estabelecimento de uma visão sistêmica, de forma a enxergar o ensino com um processo integrado, que se inicia, na chamada pré-escola e continua por toda a existência do indivíduo, é o caminho para o sucesso na educação.

Fonte:
1. https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/12/03/brasil-cai-em-ranking-mundial-de-ciencias-e-matematica-e-empaca-em-leitura.htm.
2. https://olivre.com.br/projeto-que-acaba-com-a-aprovacao-automatica-nas-escolas-publicas-tem-parecer-favoravel.
3. https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/12/05/paises-no-topo-do-pisa-dao-aos-alunos-oportunidades-iguais-e-valorizam-professores-diz-analista-da-ocde.ghtml.