O filme “Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)(1), de 2016, narra a história de três integrantes de uma equipe de cientistas da NASA, formada exclusivamente por mulheres afro-americanas, que durante a guerra fria provou ser o elemento crucial que faltava na equação para a vitória, na corrida especial, pelos Estados Unidos, liderando uma das maiores operações tecnológicas registradas na história americana e se tornando verdadeiras heroínas da nação. Chamadas de “computadores humanos”, estas mulheres eram responsáveis pelo desenvolvimento de cálculos complexos utilizados no programa espacial americano.

A temática central do filme é a segregação racial e seus efeitos perversos sobre a população negra. Mas, há uma trama paralela que muito me chamou a atenção, que foi a introdução de um computador de grande porte pela IBM, capaz de realizar cálculos a uma velocidade inimaginável, para a época.

Ao perceberem a chegada do mainframe da IBM, a primeira reação de todos foi de que “a máquina” tomaria o lugar dos profissionais, por sua capacidade de processar um volume muito grande de dados, com uma velocidade muito maior que a mente humana poderia fazê-lo.

Aprendendo com a mudança

Como os personagens do filme, a maioria de nós tende a enxergar a aparição de novas tecnologias, principalmente as de características disruptivas, como uma ameaça, por não percebermos o seu potencial de implementação de melhorias.

A personagem Dorothy Vaughan (Figura 1), logo entendeu que, o perfeito funcionamento da máquina, dependia de novas funções, como a programação, por exemplo. Assim, ela buscou estudar programação e ensinou seu grupo a fazer o mesmo, fazendo com que sua equipe estivesse preparada para lidar com as mudanças que chegaram com trazidas pela inovação(2).

Estrelas-Além-do-Tempo 2

Figura 1 – Chegada mainframe na NASA

 ( Fonte: https://www.metafictions.com/conteudo/estrelas-alem-do-tempo-hidden-figures.html)

Ao analisarmos este tipo de situação, percebemos que a onda pessimista gerada pelo medo do novo, provoca uma paralisia, na maioria das pessoas, impedindo uma avaliação pormenorizada de todos os aspectos inerentes ao processo de introdução de novas tecnologias, notadamente no campo do trabalho. Daí, a frase mais ouvida, nestes momentos, é que a máquina irá tomar o lugar do ser humano.

Ao ficarmos paralisados diante da inovação, deixamos de lado o nosso propósito e nos encolhemos, por acreditarmos em uma perda de valor, ao invés de enxergarmos a geração de novos valores.

Tecnologia só não basta

A utilização de tecnologias digitais, como inteligência artificial, internet das coisas, computação em nuvem e blockchain, é a base para a chamada quarta revolução industrial ou indústria 4.0.

Após alguns anos de testes do uso destas tecnologias e seus efeitos espera-se agora a implementação de forma definitiva destas tecnologias, para que possam ser alcançados os ganhos preconizados, quando do desenvolvimento da teoria do ambiente 4.0.

Na prática as empresas têm encontrado dificuldade nesta implementação, pelo mesmo motivo, enfrentado pela NASA, na situação retratada no filme citado, no começo deste artigo e que agora é percebido pelos pioneiros na adoção da tecnologia 4.0. O reconhecimento de que não basta só comprar e implementar a tecnologia, sem o devido investimento na capacitação das equipes(3).

A tecnologia permitirá a geração de cenários e a geração de uma quantidade de dados em tempo real, cuja análise permitirá uma tomada de decisão, cada vez mais assertiva, pelos gestores. Ocorre, que, como “Dorothy Vaughan” precisou ser formada em programação, para lidar com a nova tecnologia trazida pelo mainframe, a indústria precisará desenvolver talentos para lidar com dados. Ter um cientista ou engenheiro de dados na equipe é apontado como fundamental pela maioria das empresas, que possuem processos de digitalização industrial, em andamento.

Na reportagem “Como Engatar a Quarta Marcha”, a revista EXAME, cita o exemplo da siderúrgica GERDAU, que não conseguiu levar a diante um projeto de montagem de um modelo analítico, com o objetivo de efetuar a previsão do custo de determinado insumo utilizado na fabricação do aço. A conclusão da Empresa, segundo Gustavo Franco, diretor de inovação, foi de que “não adianta investir em tecnologia se não tiver pessoas preparadas para lidar com ela”.

A matéria, relata que pesquisa realizada pela consultoria McKinsey, registrou um percentual de apenas 30% de empresas que conseguem, passar da fase de testes, para a de implementação definitiva, potencializando a obtenção de resultados, com o uso das ferramentas digitais.

Um dos pontos citados pela McKinsey, como obstante para um melhor resultado, no “rito de passagem”, entres as duas etapas do processo de digitalização, na indústria, é a falta de investimento na capacitação do time.

Obtendo resultados com transformação digital

Não há dúvida que a implementação de novas tecnologias, é um dos pontos básicos, para que as empresas obtenham ganhos com o processo de transformação digital. Mas, um ponto que não pode ser esquecido, pelas lideranças do processo de mudança, é o entendimento de que as pessoas são fundamentais para o atingimento dos objetivos. Sem um time preparado para capacitados para entender os dados gerados pela tecnologia, será impossível ter continuidade no processo.

Além da habilidade com a “manipulação” de dados, outras habilidades serão fundamentais na formação dos profissionais 4.0. Negociação, liderança, comunicação, trabalho colaborativo, são exemplos de requerimentos que este “novo mundo” fará aos profissionais.

 

Fonte:
  1. HIDDEN FIGURES. https://www.foxmovies.com/movies/hidden-figures.
  2. https://www.hsm.com.br/3-licoes-para-aprender-com-o-filme-estrelas-alem-do-tempo/.
  3. COMO ENGATAR A QUARTA MARCHA. Revista Exame, São Paulo, ANO 53, n. 11, p. 62-64, junho. 2019.