Em recente artigo a especialista em sustentabilidade Julianna Antunes, discorre sobre o mito da economia circular. No texto, a autora discute como alguns profissionais encaram a economia circular como sendo o caminho para a implementação de um processo de sustentabilidade.

De fato, o tema ganhou visibilidade, nos últimos anos, passando a ser destaque nas discussões sobre sustentabilidade, nos meios acadêmicos, na imprensa e nas empresas (nas quais o pensamento sustentável esteja entre os objetivos estratégicos).

O conceito é simples e baseia-se em mudança no modelo de produção de linear para o circular. O leitor pode encontrar maiores informações, no artigo de minha autoria ECONOMIA CIRCULAR, no qual, de forma suscinta, estão descritas as bases do pensamento circular.

Claro está tratar-se de uma ferramenta excelente para a gestão dos problemas causados pelo modelo linear de produção, no tocante a geração de resíduos ao longo da cadeia de valor.

O impacto do consumo

O problema é que a economia circular, como ressalta a autora acima citada, baseia-se em um modelo de consumo e industrial, que precisa ser repensado, por não ser sustentável, uma vez que muita “energia” é gasta para produzir os bens e disponibiliza-los para os consumidores.

E é exatamente na ponta final da cadeia, onde nos encontramos todos (como consumidores), que está a chave para a mudança, que nos levará ao desenvolvimento de processos de negócios realmente sustentáveis.

Recentemente, o jornal O GLOBO publicou matéria intitulada “Cultura da fartura impulsiona o desperdício de alimentos no Brasil(1), na qual discorre sobre a pesquisa realizada pela EMBRAPA  e a Fundação Getúlio Vargas – FGV, que demonstra como a cultura do “é melhor sobrar do que faltar”, impulsiona desperdício de alimentos no Brasil.

É preciso ressaltar que o desperdício de alimentos, no Brasil possui outras variáveis de influência, como problemas de manuseio dos produtos, ao longo da cadeia de suprimentos, não sendo o consumo o único vilão do tema. Mas, é sobre o consumo que quero trazer a discussão.

A nossa postura diante do consumo é o ponto chave para discussão sobre o caminho para o desenvolvimento sustentável.

Consumo consciente

Quando falamos de consumo, o primeiro ponto que devemos entender é que toda decisão de consumo, traz consigo consequências positivas e negativas, afetando a economia, a sociedade e meio ambiente.

O consumo é a chave para a mudança do mindset da sustentabilidade. É preciso que nós consumidores estejamos atentos a pontos, sobre os quais a maioria de nós, não foi educada ou conscientizada, como: a geração de resíduos, a origem e os processos de fabricação dos produtos, que consumimos e os impactos por eles causados, ao longo de sua vida útil, sejam sociais ou ambientais.

Como integrantes de sua sociedade de consumo, fomos condicionados ao consumo imediatista e inconsequente, no qual a satisfação, mesmo que momentânea, causada pela aquisição de algum bem ou serviço, impõe-se a preocupação com as consequências sobre o coletivo, que nossos atos individuais acarretarão.

O consumo consciente, se opõe a esta prática consumista, influenciada por estratégias de marketing e de negócio, como a obsolescência programada, e busca mudar os hábitos no processo de compras, através do reconhecimento de boas práticas de sustentabilidade e da necessidade ou não de adquiri um produto ou serviço.

Lembremo-nos sempre que, “cada novo produto adquirido representa um gasto adicional de recursos naturais e humanos, além do descarte do item que está substituindo(2).

Por ser o elo final da cadeia produtiva, o consumidor possui um grande potencial para efetuar as mudanças necessárias, para transformação da sociedade imediatista em uma sociedade consciente e sustentável, pois está em sua mãos a decisão de que produto e de que empresa comprar, podendo, portanto, exigir que estes tenha origem em boas práticas sustentáveis.

Se tomar consciência de que suas ações podem impactar positivamente a formação do ecossistema sustentável, o consumidor assumirá papel de liderança, no processo, pois poderá tomar decisões conscientes em relação as características que atendam a sua necessidade, quem é o fabricante e qual sua relação com a sociedade e o meio ambiente, como será feito o descarte ao final do ciclo de vida, ou ainda, tomando ações que permitam o alongamento da vida útil do produto.

O modelo atual de consumo, já demonstra sinais de esgotamento, representadas pelas mudanças climáticas e ou pelos problemas dos lixões espalhados pelas principais cidades do mundo, que representam um além problema ambiental e de saúde pública. Portanto, está mais do que na hora de tomarmos consciência de que nossas atitudes de consumo precisam ser “recicladas”, para que possamos poder ter alguma esperança, no nosso futuro, neste planeta.

A mudança é possível

Você acha que algo em comum entre um(a) modelo e uma fruta ou legume? Pois, saiba que ambos dependem de aspectos ligados a beleza, para terem sucesso, em seus mercados. É isto mesmo, atender a um padrão de beleza também é um problema de frutas e legumes. Produtos desta categoria, que apresentem alguma não conformidade (uma cenoura de duas pontas, por exemplo) são, na maioria das vezes, descartadas antes de chegarem ao varejo, pois mesmo que sejam disponibilizadas nas gôndolas não são “aceitas” pelos consumidores.

Mas, felizmente, já existem ações que buscam não só evitar este crime humanitário e contra a sustentabilidade, como destacado, pela jornalista Carlina Muniz, do Grupo FOLHA/UOL, em reportagem sobre o assunto(3), através do exemplo da empresa FRUTA IMPERFEITA, que comercializa exatamente o tipo de produto, que é deixado de lado, pelos consumidores, nos pontos de varejo.

A ideia dos fundadores da fruta imperfeita não foi só criar um canal de distribuição, para produtos, sem as características de beleza, impostas pelo mercado, mas acima de tudo conscientizar os consumidores, para o problema que uma atitude como esta pode trazer para a sociedade.

Desde a sua fundação, em 2015, a Empresa já vendeu mais de 300 toneladas, de frutas que teriam sido descartadas, como lixo, simplesmente por não atenderem um padrão de beleza, estabelecido, não por quem irá consumi-la, mas por estratégias comerciais, das empresas vendedoras.

Fonte:

  1. https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/02/10/cultura-da-fartura-impulsiona-desperdicio-de-alimentos-no-brasil.ghtml.
  2. https://www.ecycle.com.br/6414-consumo-consciente.
  3. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/10/1931010-empresas-comercializam-legumes-que-seriam-desprezados-por-serem-feios.shtml