É tempo de mudança!

A sociedade experimenta ou se prepara para mudanças, que impactam, em vários aspectos, relacionamentos, mobilidade, desenvolvimento intelectual (aprendizagem), entretenimento, etc.

Enfim, mexem com a nossa vida.

O mercado de trabalho não fica fora deste momento de mudança, e não me refiro a falta de postos de trabalho, experimentada no Brasil, nos últimos anos, e sim, a forma como desenvolveremos nossas atividades profissionais nos próximos anos.

A dúvida é: estamos preparados para este novo cenário que se desenha?

A evolução da base de empregos

Grande parte dos profissionais atualmente em atividade no mundo, teve sua formação em um cenário, cujas bases foram formatadas no período pós-revolução industrial, no qual as grandes corporações tornaram-se responsáveis pela base de empregos, ou seja, pela oferta da maior parte dos postos de trabalho.

A revolução industrial, iniciada no século XVIII, no continente europeu, estabeleceu a ruptura do modelo econômico da época, baseado na produção agrícola, com a migração para um novo modelo, fundamentado na produção de bens em larga escala, produzidos em plantas industriais, concentradas em áreas fora da região agrícola, dando início ao processo de formação das denominadas zonas urbanas.

A população trabalhadora viu-se obrigada a migrar do campo para as cidades, uma vez que a oferta de empregos e de salários era maior nestes centros.

O mundo assistia a um processo de transformação rápido e intenso, no qual os trabalhadores tiveram que se adaptar e buscar novas habilidades exigidas pelos processos industriais, totalmente diferentes dos processos agrícolas utilizados à época.

A partir da metade do século XX houve modificações da base econômica de muitas regiões, ocorrendo o aumento da participação do Setor Terciário (serviços) na geração de emprego e renda. Esse fato, somado ao crescente fenômeno da terceirização, conduziu a sociedade a uma nova mudança na base geradora de empregos, com o fortalecimento do setor de serviços, por alguns denominado de economia pós-industrial(1).

No início dos anos 2000, o eixo da oferta de empregos sofre uma nova mudança de direção, com o crescimento das Pequenas e Médias Empresas – PME, que passaram a responder por fatia significativa dos postos de trabalho no mundo. No Brasil, o setor de PME responde por 54% dos empregos formais.

A revolução tecnológica

A humanidade experimentou um enorme avanço tecnológico, desde que os seres humanos descobriram a utilidade do fogo, para sua sobrevivência, passando pelos avanços obtidos no período pós-revolução industrial, até o momento atual, em que temos acesso a um nível de tecnologia inimaginável a bem pouco tempo.

O desenvolvimento tecnológico atingido pela humanidade trouxe inúmeros benefícios para todos os setores, mas é fato que também propiciou o aparecimento de problemas e questionamentos.

Um dos problemas mais discutidos ao longo dos anos é o impacto da tecnologia no mercado de trabalho. De fato, a perda de postos de trabalho, com a substituição de trabalhadores por máquinas é um dos maiores pesadelos da classe trabalhadora.

A automação de processos industriais sempre foi uma discussão que mobilizou diversos atores da sociedade, como: trabalhadores, instituições sindicais, políticos, cientistas sociais etc.

Estudo publicado pelo Fórum Econômico Mundial, com base em pesquisa realizada nos 15 países, incluindo o Brasil, nos quais está concentrada 65% da força mundial de trabalho, prevê que cerca de 5,1 milhões de empregos serão eliminados, nos próximos cinco anos, em virtude do aumento do processo de automação e da aplicação de novas tecnologias.

A denominada quarta revolução industrial ou era 4.0, cuja base é a integração de tecnologias, como inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, biotecnologia, impressão 3D e genética, resultará em profundas mudanças nos modelos de negócio e no mercado de trabalho, nos próximos anos.

O impacto dessa nova revolução não ficará restrito ao setor industrial, devendo atingir, com intensidade diferente, todos os setores, proporcionando mudanças importantes.

O estudo do Fórum Econômico Mundial, destaca os setores de saúde, financeiro e energia como sendo os mais propensos a mudanças. Mas, outros podem ser somados a estes, como o de supply chain, onde existe uma tendência de forte mudança, em processos de gestão e operacionais.

Um exemplo, na área de supply chain, está no uso de drones na entrega de produtos ou em operações de armazenagem. A empresa brasileira GTP Tecnologia criou um serviço de monitoramento de estoques utilizando drones, inclusive para contagem dos itens, durante os processos de inventário.

O desafio dos profissionais

A adaptação a novos cenários faz parte da história do mercado de trabalho. Ao longo da história moderna, a trajetória da classe trabalhadora foi marcada tanto por movimentos migratórios, entre setores econômicos, como pela necessidade de adaptação a novos modelos de trabalho e tecnologias, como por exemplo:

  1. Migração campo-cidade e adaptação ao novo ambiente, nas fábricas;
  2. Mudança para o setor de serviço, lidando com processos de venda, principalmente com o surgimento das grandes redes de departamentos, novidade para uma expressiva parcela da força de trabalho;
  3. Desenvolvimento de habilidades para uso de computadores e demais tecnologias do século 20.

O principal ponto da estratégia de enfrentamento de períodos de mudança está na real percepção da realidade e do status da mudança. No Brasil, a pesquisa efetuada pelo Fórum Econômico Mundial, apontou que 55% dos entrevistados, vêm como principal obstáculo a adaptação a era 4.0, o “insuficiente entendimento das mudanças”(2).

Será de grande importância para os profissionais, observarem que outros modelos de “trabalho” despontam como vias para o estabelecimento de um novo arranjo socioeconômico, com destaque para o empreendedorismo.

No caso específico do Brasil, estruturas como a do Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE serão fundamentais para solidificar o ecossistema do empreendedorismo, desenvolvendo as condições para que a PME seja capaz de absorver um número maior de pessoas, que entendam ser esta a via que as fará atravessar este momento de mudança.

A educação como aliada da transição

Um dos pontos mais mencionados pelos entrevistados, como forma eficaz de gerenciamento deste processo disruptivo é a requalificação dos profissionais. Criar condições para que estes migrem de setores mais atingidos pela revolução 4.0, onde postos de trabalhos serão eliminados, para outros onde haja oferta de posições, é fundamental.

As áreas de tecnologia de informação, serviços profissionais, mídia e entretenimento, apontadas na pesquisa, como os mais prováveis geradores de postos de trabalho, terão papel preponderante, notadamente, na fase de transição, onde as perdas acontecem, antes que os resultados positivos do novo modelo possam ser usufruídos.

O desafio de readaptar pessoas que já estejam no mercado de trabalho é grandioso, pois requer um planejamento minucioso e a disponibilização de canais capazes de efetuar o processo com agilidade e qualidade.

Mas, o desafio está longe de ser somente este, pois é preciso pensar nos profissionais que permanecerão em seus setores originais e que terão também que passar por um processo de requalificação e aprimoramento de suas habilidades, afim de que possam adaptar-se aos novos tempos, onde necessitarão de novas competências como, por exemplo: fluência em novos idiomas, elaboração e gerenciamento de projetos, trabalho em equipes multidisciplinares e gestão ambiental.

Exemplo serão os profissionais da área de compras que, devido a gestão com foco na sustentabilidade, necessitarão aumentar o raio de observação, passando a concentrar-se em todo o ciclo de vida do produto (do berço ao berço), cuidando do produto desde o seu desenvolvimento, de forma a garantir que os resíduos gerados ao longo do processo sejam reaproveitados, a partir de sua reintrodução no processo produtivo original ou de algum outro produto. Terão também que aprender a lidar com as novas tecnologias, utilizando-as para melhorar a produtividade dos processos de aquisição e gestão da cadeia de fornecimento.

Instituições de desenvolvimento profissional terão papel primordial, na formação deste “novo” profissional, fornecendo o ferramental e o conhecimento necessários para que o profissional possa fazer a transição sem grandes percalços.

Um olhar atento deverá ser direcionado aos entrantes no mercado de trabalho, pois pouco adianta continuarmos formados jovens em profissões que podem estar extintas em alguns anos, como revelou um estudo divulgado, recentemente, na Austrália, que constatou que 60% dos jovens, naquele país, estão aprendendo profissões que serão ocupadas pela inteligência artificial, em 20 anos.

Estará nossa estrutura educacional preparada para atender esta nova realidade? Parece que não.

Precisamos discutir o assunto, com urgência, antes que seja tarde demais.

FONTES:
  1. BEM, Judite Sanson de. RICHTER, Nelci Maria. O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E O PAPEL DOS SERVIÇOS: uma análise da sua influência sobre a estrutura do emprego e da renda do município de Canoas/RS a partir de 2000. Disponível em: rs.gov.br/3eeg/Artigos/m05t04.pdf. Acesso em: 11 abr. 2017.
  2. ROSSI, Clóvis. TECNOLOGIA CORTARÁ 5,1 MILHÕES DE EMPRREGO NOS PRÓXIMOS 5 ANOS. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/01/1730644-tecnologia-cortara-51-milhoes-de-empregos.shtml. Acesso em: 11 abr. 2017.
  3. FOTOS
– Robô vigilante (Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/06/140630_robos_empregos_lab ).