O desenvolvimento populacional mundial foi fortemente impactado pela mudança no sistema econômico, que passou da base agrícola para a industrial, em consequência da revolução industrial, iniciada ao final do século XVIII, na Inglaterra, cuja consolidação deu-se no século XIX.

O surgimento do modelo econômico industrial, gerou um fenômeno migratório, com o deslocamento de pessoas do campo para a cidade, onde passara a concentrar-se as oportunidades de trabalho e desenvolvimento humano.

No século XX, vimos o crescimento urbano acelerado e a formação de grandes metrópoles. No Brasil, esta mudança ocorreu a partir da década de 60, quando a população urbana superou a rural e a diferença entre o número de pessoas vivendo nas cidades e no campo aumentou vertiginosamente. Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o percentual de pessoas vivendo na cidade passou de 25%, na década de 50 para cerca de 80%, em 2010.

O fluxo migratório campo-cidade fez surgir as metrópoles, caracterizadas por um enorme adensamento populacional e na crescente demanda pelo uso do solo urbano, principalmente nos grandes centros, ponto de convergência dos vetores de geração de empregos e negócios.

PLANEJAMENTO URBANO

O crescimento urbano mundial carece de planejamento, independentemente do tamanho ou estágio de desenvolvimento da sociedade analisada. Em seu estágio inicial, o pensamento urbano foi direcionado para a viabilização do acesso das massas, através principalmente da implantação de vias com grande capacidade de escoamento. Assim surgiram as grandes avenidas, de extensões e larguras cada vez maiores.

O arquiteto, urbanista e ex-prefeito de Curitiba/PR Jaime Lerner, destacou em entrevista ao jornal GAZETA DO POVO ON LINE que: “trabalhar nas soluções para os problemas urbanos é fundamental para se atingir uma sustentabilidade maior na sociedade. Segundo ele, 75% das emissões de carbono se originam nas cidades. “É onde podemos resolver esses problemas de maneira mais fácil, mais solidária, em conjunto com os cidadãos”(1).

O planejamento urbano ordena as atividades econômicas e facilita a captura de valor do investimento público, aumentando a capacidade das cidades de competirem por investimentos, que possam gerar negócios e empregos.

O processo de crescimento desordenado, aliado a falta de planejamento teve como principal consequência o aumento da dificuldade de acesso aos grandes centros, principalmente nos horários de pico.

Organizar e orientar o crescimento dos centros urbanos tornou-se matéria de primeira necessidade, face ao caos experimentado pela maioria das grandes cidades no mundo.

Jaime Lerner, também destacou que “os centros urbanos representam uma estrutura que inclui, ao mesmo tempo, questões de trabalho, mobilidade, moradia e lazer. Para Lerner, separar a cidade por funções e classificações, como renda ou idade, é um erro. Continuamos insistindo em fazer as cidades sem termos uma visão, uma concepção correta de crescimento, e continuamos separando em funções”.

UM NOVO OLHAR SOBRE MOBILIDADE URBANA

A sociedade precisa buscar soluções para o problema da mobilidade urbana, por dois motivos principais:

  1. O esgotamento do modelo de aumento da capacidade viária;
  2. A necessidade de uma resposta ao problema ambiental gerado pela emissão de gases poluentes, despejados no meio ambiente, pelos veículos movidos a combustíveis fósseis.

Buscar alternativas que permitam a rápida diminuição da circulação de veículos nos grandes centros urbanos é urgente e requer uma ação conjunta da sociedade civil e dos governos, para que sejam alcançadas soluções que equacionem o problema, sem gerar novos.

Felizmente, temos alguns exemplos, no mundo, aos quais podemos direcionar nossa atenção, na busca do entendimento das bases conceituais, históricas e econômicas, que norteiam estes projetos, para assim podermos decidir pela possibilidade de replicarmo-los em outras cidades.

Dentro do tema mobilidade urbana, dois assuntos têm sido muito discutidos:

  1. O fechamento de centros urbanos para circulação de veículos;
  2. O uso de carros compartilhados (incluindo os aplicativos de transporte de passageiros).

O EXEMPLO DE NOVA YORK(2)

Em 2009, o então prefeito da cidade de Nova York (NY), Michael Bloomberg, decidiu implantar um projeto de proibição da circulação de veículos na principal área de comércio da cidade a Time Square, conhecida mundialmente e que recebe cerca de 39 milhões de pessoas anualmente, o que a torna o local mais visitado do mundo. Estima-se que região concentre cerca de 20% de toda a oferta hoteleira da cidade, mais de 30 milhões de metros quadrados de escritórios e lojas comercias, além da não menos famosa Broadway, com seus inúmeros teatros, que recebem um enorme público semanalmente.

A região teve que buscar soluções para o problema da mobilidade urbana e passou por um processo de impedimento da circulação de automóveis, em um determinado trecho, no qual foram priorizados os acessos de pedestres e bicicletas.

O professor Tim Tompkins, adjunto na cadeira de “Políticas Públicas”, na Universidade de Nova York – NYU e presidente da TIMES SQUARE ALLIANCE, entidade civil que trabalha junto à prefeitura, negócios locais e moradores na promoção e administração do espaço público, acompanhou de perto todo o processo de mudança implementado na região, sendo um entusiasta dos resultados obtidos, principalmente quanto ao aumento do volume de negócios gerados na Time Square, após a implementação do projeto. Outro ponto destacado pelo professor Tim foi o aumento do uso do transporte público na região, que foi da ordem de 68%.

É importante ressaltar que o fechamento da região da Time Square, foi parte de um processo de reorganização da cidade de Nova York como um todo, que passou pelo combate a violência, com uma drástica diminuição do número de roubos e mortes, bem como de novas posturas públicas.

O exemplo da cidade de NY, pode servir de inspiração para cidades como São Paulo, cujo o principal centro popular conhecido como região da 25 de março, possui estudos de viabilidade para implantação de projeto semelhante, com o fechamento da região a circulação de veículos.

A BICICLETA COMO SOLUÇÃO DE DISTRIBUIÇÃO

Quando o tema fechamento dos centros urbanos a circulação de veículos entra em debate, um questionamento surge de imediato: o feito sobre o abastecimento dos centros comerciais, uma vez que estes necessitam de reposição, alguns de forma contínua, de seus estoques para continuarem operando. Trata-se de uma preocupação legítima, pois, como destaca o arquiteto Jaime Lerner, é preciso que o projeto de reorganização de áreas centrais, nas grandes cidades, seja realizado a partir de uma visão sistêmica, considerando todas as variáveis de influência do processo.

A solução para o problema do abastecimento de centros comercias, passa pelo uso da bicicleta no processo de entrega de produtos no ponto de venda ou mesmo para residências que estejam no perímetro abrangido pelo projeto.

O uso de bicicletas para entrega de produtos em centros urbanos não é novo, mas passa por um processo de modernização onde equipamentos especialmente desenvolvidos para aplicação no chamado “lastmile logístico”, que é o processo de entrega no ponto de consumo do produto, ou seja, onde acontecerá a transferência para o consumidor final (ponto de venda ou residência).

A dinâmica de utilização de bicicletas cargueiras tem crescido no mundo todo, com diversos relatos de casos de sucesso e atraiu os grandes fornecedores de serviços logístico mundiais. A gigante mundial UPS(i)(3) divulgou o projeto implantado na cidade de Portland/USA, para entrega de encomendas utilizando bicicletas elétricas (figura 1), cujo foco é a questão ambiental, mas que pode ser aplicada no caso de projetos de impedimento de circulação de veículos de carga em áreas centrais, sem perder seu cunho ambiental.

Entrega de bicicleta UPS

Figura 1: Bicicleta cargueira da UPS

TRANSPORTE COMPARTILHADO

A ideia de uma economia formada por um ecossistema sustentável, onde recursos são compartilhados por aqueles que possuam necessidade de uso, mas não de forma continuada, denominada de “Economia Compartilhada”, vem ganhando força no mundo e atraiu a atenção de pesquisadores e especialistas econômicos.

Segundo Braga(4), “no modelo compartilhado, as pessoas têm a preocupação de criar soluções para problemas específicos, têm consciência nos negócios, compreendem o empreendedorismo social, operam negócios sustentáveis e aplicam conceitos e ética nas empresas”.

O sistema de transporte nas grandes cidades, especialmente nos grandes centros urbanos poderá ser enormemente impacto com a ideia do compartilhamento de recursos, através da gradual substituição do uso de carros particulares, cuja a taxa de ocupação é muito baixa, por sistemas compartilhados.

A cidade de Fortaleza/CE iniciou em setembro de 2016 um projeto piloto de um sistema público de carros compartilhados, denominado VEMO – Veículos Alternativos para Mobilidade(5), cuja a frota é composta por veículos movidos a eletricidade. Segundo o prefeito da cidade, “trata-se de um projeto-piloto que vai funcionar como um importante laboratório para que a Prefeitura de Fortaleza possa, a partir dessa amostra, mensurar o potencial de impactos positivos que o uso de veículos elétricos pode proporcionar à mobilidade urbana, à integração de modais, mas principalmente ao meio ambiente, uma vez que os automóveis à combustão atualmente são os maiores responsáveis pela emissão de gases do efeito estufa em Fortaleza”.

Outro vetor de facilitação do aumento do uso de compartilhamento no Setor são os aplicativos de transporte, que facilitam a interação entre oferta e demanda por viagens urbanas de passageiros.

O professor Arun Sundarajan, da escola de negócios Stern, da Universidade de NovaYork, um dos maiores especialistas no impacto das tecnologias digitais no Setor de Transporte, defende a tese de que os aplicativos de transporte, atuam com uma rede de transporte público invisível e por isso deveriam ser incentivados pelos governo municipais e que o serviço de motoristas particulares deveria ser incorporado ao planejamento das cidades, de forma a permitirem a integração destes serviços ao sistema de transportes das cidades. Em entrevista à revista EXAME(6), Sundarajan defendeu a criação de um bilhete único que junte os aplicativos à rede de transporte público.

INICIANDO A MELHORIA NA MOBILIDADE URABANA

Indagado sobre a possibilidade do modelo adotado na Time Square ser aplicado em outras localidades, Tim Tompkins respondeu que sim, mas destacou: “não existir uma fórmula de aplicabilidade geral. No final, ela deve ser criada para cada lugar”. Para o professor Tompkins, é complicado convencer as pessoas a aderirem a processos de mudanças.

Apesar de enfatizar aspecto de peculiaridade de cada cidade, o professor ressalta alguns pontos que podem formar a trilha de conhecimento de cada projeto:

  1. Observar a rua, como as pessoas passam por ela, os caminhos dos pedestres, quais os tipos de negócios são mais movimentados etc;
  2. Conversar com as pessoas que estão nos carros, pois elas podem ter preocupações verdadeiras como o transporte de produtos e equipamentos para os negócios locais;
  3. Pesquisar como o espaço é atualmente usado por carros, pessoas, ciclistas e proprietários. Esse conhecimento poderá embasar a modelagem da estratégia política necessária para fazer as pessoas aceitarem as mudanças;
  4. Moldar uma estratégia administrativa para o que você fará, sabendo que, se você fechar a rua para carros, a dinâmica vai se alterar.

Nota do autor:

(i) UPS ou United Parcel Service Inc. é um dos maiores provedores mundiais de serviços de transporte expresso e logística.

Fontes:

  1. http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/planejamento-urbano-nao-pode-separar-transito-moradia-e-lazer-diz-lerner-3seeuh26doembhznoitqjlsf7#social2_comentario_form. Acessado em: 15/02/17.
  2. LAMAS, Júlio. TIMES SQUARE: MAIS PEDESTRES, MAIS NEGÓCIOS. Disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/urbanidades/times-square-mais-pedestres/?utm_source=facebook. Acessado em: 15/02/2017.
  3. UPS LANÇA ENTREGA ECOLÓGICA COM BICICLETAS/. Disponível em: http://creapills.com/livraison-velo-electrique-ups-20161214. Acessado em: 16/02/17.
  4. BRAGA, João Kepler. O IMPACTO SOCIAL DA ECONOMIA COMPARTILHADA. Disponível em: http://www.inovativabrasil.com.br/impacto-social-economia-compartilhada/. Acessado em: 16/02/17.
  5. CARROS COMPARTILHADOS COMEÇAM A RODAR EM FORTALEZA. Disponível em: http://g1.globo.com/ceara/noticia/2016/09/carros-compartilhados-comecam-operar-nesta-quinta-feira-em-fortaleza.html. Acessado em: 16/02/17.
  6. SALGADO, Eduardo; SERRANO, Filipe; KOJIKOVSKI, A GUERRA DOS APPS NAS RUAS. Revista Exame, São Paulo, ANO 51, n. 03, p. 26-35, fevereiro. 2017.
  7. Fotos:

Times Square: Times Square Alliance/Divulgação.

Bicicleta cargueira: creapills.com/livraison-velo-electrique-ups-20161214.