Tenho dedicado muita atenção ao tema mercado de trabalho, assunto pelo qual tenho especial apreço, por entender estarmos vivendo um momento especial, no que tange às relações e a formatação do ecossistema do trabalho.

A crise econômica que assola o Brasil direcionou a discussão sobre o tema para o aspecto quantitativo do problema, uma vez que já temos mais de 12 milhões de trabalhadores sem emprego, número por si só extremamente preocupante e que foi agravado pelo estudo divulgado, na semana passada, pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apontando que a taxa combinada da população desempregada e subocupada(i) alcançou 16% no segundo trimestre deste ano, o que representa 16,4 milhões de pessoas(1).

O estudo aponta que além do grande número de desempregados, existem ainda cerca de 6,2 milhões de pessoas fora do mercado, por motivo de doença, gravidez etc; e 4,8 milhões de profissionais estavam subocupados.

Olhando para os números acima podemos perceber que o desafio, em termos de recomposição do mercado de trabalho, é muito maior do que muitos imaginam, pois temos um contingente de superior a 20 milhões de pessoas a serem redirecionadas ao pleno emprego. Um desafio gigantesco.

Apesar do aspecto quantitativo ser de extrema importância, uma outra face deste problema tem sido objeto de minha atenção e de busca pelo entendimento, que é o qualitativo, ou seja, de como o mercado de trabalho está passando por modificações, que começam a trazer à tona questionamentos como a necessidade de implementação de modificações nas leis trabalhistas, tão discutidas no mundo todo.

Não é minha intenção estabelecer uma discussão, jurídica, política ou social, sobre o tema das reformas trabalhistas, mas sim, como um novo mercado de trabalho está sendo moldado e seus impactos na reinserção deste contingente na atividade produtiva.

O principal componente modelador desta nova era do trabalho, é a revolução digital, iniciada nos anos 80 e que, a uma velocidade inimaginável, permitiu o acesso rápido e em tempo real a todo tipo de informação, estabelecendo mudanças comportamentais na população, ao redor do planeta (Figura 1).

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Figura 1: Contexto digital – Novos hábitos

A universalização da tecnologia introduziu mudanças nos hábitos desde a infância. Pessoas com mais de 50 anos, devem lembrar-se de brincadeiras como: pular amarelinha, pique etc. Hoje, grande parte das crianças, caçam “POKÉMON”.

O Brasil, apesar de todas as dificuldades, está se tornando um país digital. As redes sociais tornaram-se um fenômeno no Brasil. Dados recentes demonstram que o brasileiro passa cerca de 650h por mês navegando em redes sociais(2). O número de contas em redes sociais ultrapassa a casa de 96 milhões.

A tecnologia permitiu o desenvolvimento de novos modelos de negócio, como o UBER, Airbnb e as plataformas de comércio eletrônico (e-commerce). Muitas empresas tiveram que aprender a conviverem, com modelos de negócios embasados em tecnologia, que passaram a desfiar modelos estabelecidos a muito tempo, como por exemplo, as redes de varejo de loja física, diante do surgimento do e-commerce.

Dois pontos me preocupam, diante da realidade das mudanças:

Primeiro, o grau de preparo dos profissionais brasileiros, que já estão no mercado, para se adequarem a esta nova realidade. Em artigo recente(3), o professor Cesar Lavralle discorreu sobre o tema, com foco na área de cadeias de suprimentos. Diz o professor Cesar: “A mudança de perfil do profissional, necessária para esses novos tempos, tem sido impulsionada para atender exigências das novas práticas que estão sendo adotadas para atender o mercado. Imagine o que está acontecendo com o Uber, se comparado aos tradicionais taxis! ”.

Na área de supply chain, por exemplo, a “era digital”, provavelmente, irá desencadear uma onda de automatização de processos e operações, que eliminará postos de trabalho operacionais, que serão substituídos por robores e softwares de inteligência artificial. Empresas como Coca-Cola, Natura, Boticário, Souza Cruz, tem apresentado projetos de centros de distribuição, com um grau de automatização que chega próximo a 100% das operações.

O segundo, é a formação dos novos profissionais. Ou seja, o quanto o modelo educacional adotado no ensino superior brasileiro está alinhado com esta nova era.

Em artigo anterior(4), trouxe a discussão sobre a formação de nossos quadros discentes e de como especialistas apontam duas causas principais para baixo desempenho científico e tecnológico enfrentado pelo Brasil:

  1. O descompasso entre a escolha de cursos e as necessidades do mercado;
  2. A baixa qualidade do ensino e das habilidades dos alunos.

Agora entendo ser o momento de trazermos a discussão sobre que tipo de profissional necessitaremos formar nas próximas décadas, para adequarmos os currículos das universidades brasileiras, de forma a termos profissionais bem preparados. A formação universitária deverá formar jovens preparados para empreender.

Outro ponto importante, quando penso no número de mais de 20 milhões de desempregados e subocupados, é a sobre a incerteza não só quanto ao prazo, mas também quanto ao perfil do mercado de trabalho, que surgirá passado este tsunami econômico, que estamos vivendo. Empresas tem reduzido, como forma de combate à crise atual, cargos, funções e processos. A questão é: o quanto disto será retomado, ao final da crise? Será que as empresas voltarão ao tamanho do início da crise ou, como forma de ganhar produtividade e reduzir custos, irão manter as estruturas organizacionais mais enxutas.

Para retornarmos ao nível de emprego que possuíamos no final de 2013, muitas vezes denominado de pleno emprego(ii), mas que na realidade representava a ocupação de postos de trabalho, será necessário um olhar atento para as características deste mercado digital, muito menos intensivo em mão de obra operacional e ao deslocamento da demanda para áreas, cujo crescimento vem ocorrendo de forma consistente, como a de energias renováveis (eólica, biogás, solar), com destaque para o setor de energia eólica, que já representa 6,3 % da capacidade total de geração de energia do Brasil, com projeção de chegar a 11,6%, até 2024.

O Setor de Pequenas e Médias Empresas (PME), é outro com alto potencial de geração de postos de trabalho. O Setor, é apontado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), como o grande motor de geração de empregos, sendo responsáveis por um percentual de 47% dos postos de trabalho, na América Latina (No Brasil estima-se em 40%). Apoiar a formação de uma geração empreendedora, aumentando o número de PME brasileiras, poderá ter um impacto extremamente positivo na geração de emprego.

Em resumo, temos um cenário desafiador na formatação do mercado de trabalho para os próximos anos, que passa pelos seguintes pontos:

  1. A reintrodução no mercado do contingente de desempregados e subocupados, através da reabertura de postos de trabalhos fechados, ao longo do período de crise econômica (e política também) e da readequação do perfil profissional, daqueles que não sejam absorvidos, no processo de retomada da economia;
  2. Definição das premissas de formação de novos profissionais, alinhados com uma economia digital, na qual processos operacionais serão cada vez automatizados, fazendo com que a demanda por serviços “braçais” decline;
  3. Revisão das grades curriculares do ensino médio e superior, objetivando aumentar a capacidade de desenvolvimento de pesquisa interna, capaz de sustentar o crescimento da economia de forma sustentável;
  4. Criação de ambiente incentivador do empreendedorismo, que permita o surgimento de uma geração de empreendedores que possam criar riqueza e novos empregos.

A base da formação deste novo modelo de mercado de trabalho é a educação.

 

NOTAS:

(i) População com ocupação formal inferior a 40 horas semanais.

(ii) A expressão pleno emprego refere-se, em economia, a total utilização dos fatores de produção.

FONTES:

  1. IBGE: população desempregada e subocupada chega a 16% no segundo trimestre. Disponível em: http://www.correiodobrasil.com.br/ibge-populacao-desempregada-e-subocupada-chega-a-16-no-segundo-trimestre/. Acesso em: 17 out. 2016.
  2. BRASILEIROS GASTAM 650 HORAS POR MÊS EM REDES SOCIAIS. Disponível em: logs.oglobo.globo.com/nas-redes/post/brasileiros-gastam-650-horas-por-mes-em-redes-sociais-567026.html. Acesso em: 17 out. 2016.
  3. LAVALLE, Cesar. A TRANSFORMAÇÃO DIGITAL DO SUPPLY CHAIN E SEUS IMPACTOS NO TRABALHO. Disponível em: com.br. Acesso em: 14 out. 2016.
  4. SALLES, Wladimir. PORQUE O BRASIL TEM POUCOS “CERÉBROS”? Disponível em: http://wmtc.com.br/2016/05/23/por-que-o-brasil-tem-poucos-cerebros-2/.